Literatura

domingo, 29 de março de 2020

O Horror de Hidrolândia


O Horror de Hidrolândia


Fui covarde em fugir da cidade, confesso. Por outro lado, a coragem para contar o que vi é meu único alento, o qual impede que meu coração venha a explodir antes de tentar, pelos menos, salvar alguma alma desavisada que busque purificar o corpo nas águas pouco confiáveis do Ribeirão Grimpas. Devo salientar, contudo, que o que vou relatar não tem qualquer relação direta com os demônios de minha infância, tampouco com as noites de insônia em meus primeiros dez anos de vida. Prefiro acreditar que a passagem infeliz seja fruto da violência adulta a qual sofri, aplicada como intimidadora da arte ou pela arte do experimento infantil.
Era minha última semana de aula na quarta série. A escola, apesar de limpa à primeira vista, sucumbia na sombra e na sujeira de um misterioso e denso nevoeiro que se formava sempre após o toque do último sinal, enquanto alunos e professores formavam uma correria desvairada para abandonar suas dependências. Fora dos muros da escola, tudo condizia à normalidade dos tempos estranhos: os raios de sol acompanhavam os passos lentos dos passageiros recém-chegados da capital. Os trabalhadores da pequena e sombria cidade desciam do ônibus cabisbaixos e receosos. Ninguém se atrevia a lançar uma mísera olhada sequer para os portões da escola. Os que tinham filhos, os quais lá estudavam, compartilhavam o mesmo pensamento: “espero que meu filho tenha sido rápido o bastante”.
O fenômeno do nevoeiro e o desaparecimento dos banhistas do ribeirão despertavam o interesse de vários meios de comunicação da capital, porém nenhum jornalista jamais conseguiu alguma informação, nem dos profissionais que trabalhavam na escola, nem da população da cidade. Sem fatos concretos, o que se sabe sobre os mistérios de Hidrolândia são apenas lendas distorcidas, contadas aqui e acolá pelos bêbados e loucos da cidade.
Não levantarei hipóteses sobre o mistério do nevoeiro nem sobre os desaparecimentos, aos quais me inteirei por murmúrios inconscientes de meu velho avô, que vez ou outra proferia narrativas de terror enquanto dormia em sua cadeira de balanço depois de almoçar, mascar seu fumo e, logo em seguida, cuspi-lo na parede. Devo contar apenas o que vi e tentar deixar à margem as emoções durante o relato, com o intuito de não corromper minhas lembranças, afinal, o que realmente importa é contar o que vi e não o que eu gostaria de ter visto.
Poucos minutos antes de tocar o sinal da última aula, todos os alunos já haviam guardado seus materiais. Como de praxe, estávamos a postos. A professora estava sentada, incômoda: tinha um pé com a planta apoiada ao chão, e o outro apoiado apenas a ponta, com dedos espalhados que saltavam a sandália, buscando a melhor posição possível para um levantar firme e rápido. Os alunos angustiavam-se em silêncio e não se atreviam a olhar através das grandes janelas laterais. Nada se ouvia, nem o voar das moscas, as quais desapareciam de forma misteriosa ainda no meio da tarde.
Entre os alunos, havia uma menina que se mostrava indiferente a tudo. Entre os meninos, tínhamos uma convenção: ela era a menina mais bela da cidade. Embora fosse uma beleza nociva, algo nela me cativava. Não tenho na memória o rosto das outras meninas, talvez seus atributos mornos não clamassem por atenção, o que fez, certamente, com que Deus as vomitasse. Pensei, lembrando-me de um sermão do Padre.
Maria – seu nome era outro, mas não quero aqui invocar seu verdadeiro nome em respeito às alturas ou às profundezas – tomou algumas moedas das mãos de um menino apaixonado, deixou-o choramingando no corredor, veio em minha direção e pegou-me pela mão:
— Venha comigo e não faça perguntas!
Depois de quatro anos estudando na mesma sala que ela, sem trocar uma palavra sequer, achei tudo aquilo muito estranho: Porém, obediente à beleza, acompanhei-a. Não antes de contemplar a triste cena do garoto traído, imóvel, reclinado sobre a porta fechada da sala dos professores, observado entre gargalhadas de alunos que desconheciam as veleidades do amor ou que preferiam desfrutar da leveza do humor negro a sentir o peso da compaixão. Corremos em direção ao portão e saltamos para fora, caímos sobre o canteiro de flores que dividia a avenida ao meio. Preocupado com o aluno que ficara no corredor, olhei apreensivo para o portão. Os últimos alunos saiam desesperados, enquanto o nevoeiro fazia com que a escola, apesar da tarde ensolarada, mergulhasse na escuridão como em noites sem luar.
Alguns minutos depois, Maria e eu tirávamos os espinhos e carrapichos da roupa, foi então que ouvimos um grito de horror vindo do interior da escola. O contraste da tarde ensolarada da cidade com o breu noturno do interior da escola fez com que víssemos um menino albino saindo de dentro dela. “Deve ser só uma confusão visual”. Pensei e esfreguei os olhos com força. Ao abri-los, o menino albino estava lá. Suas feições lembraram-me o menino apaixonado do corredor, mas sua pele, antes morena, seus cabelos e até seus olhos haviam perdido toda a pigmentação.
Ele caminhou alguns metros e encarou Maria. Notei que sua respiração e seus músculos faciais passavam a impressão de que ele era a própria imagem da ira. Maria o olhou com naturalidade e um leve sorriso cínico. Nesse momento, voltei a esfregar os olhos. O que eu vi jamais fora contado em histórias de terror: ele olhou para o sol enquanto sua pele e seus olhos exalavam uma fumaça branca e densa, era como se seu corpo se transformasse em pó, logo foi levado pelo vento de volta para o interior sombrio da escola. Maria puxou-me pelo braço e corremos.
Descemos a Avenida Antônio Mendonça em direção ao Ribeirão das Grimpas. No caminho paramos em uma mercearia à esquerda. Fiquei fora, enquanto Maria entrou para gastar as moedas. Depois de alguns minutos, ela saiu portando uma sacolinha, não me importou o conteúdo, tudo parecia estranho demais aquele dia, eu mal sabia por que a acompanhava. Maria agarrou-se em meu braço e continuamos.
Ela caminhava como se fosse um dia corriqueiro qualquer. Eu, aterrorizado, tentava organizar meus pensamentos para entender o que havia acontecido na escola. Respirei fundo, observei que ela me segurava com mais força que carinho. Então a perguntei:
— Maria, o que aconteceu com o…? Ela interrompeu-me com um pequeno golpe nas costelas e um beliscão no braço.
— Fique calmo, calado, você já saberá de tudo!
Chegamos até a Alameda das Grimpas e viramos à esquerda, onde havia uma bica d’água e um poço abastecido pelo ribeirão. A noite aproximava-se com seus ventos tranquilos e gelados. Ao chegar à beira da bica, ouvi coaxares de sapos e cantos de seriemas vindos do poço e da margem contrária ao ribeirão. Senti respingos de água fria molhar minhas pernas. Olhei para baixo e acompanhei a queda d’água que batia com força no chão e logo corria ladeira abaixo em direção ao Poço Velho. Nesse instante, Maria aproximou-se e beijou-me no rosto.
— Venha, vamos terminar o que começamos!
Não entendi ao certo o que realmente havíamos começado. Eu me sentia confuso como em uma espécie de transe. Descemos a encosta e paramos à beira do poço. O Poço Velho era como um lago com uma enorme pedra à esquerda, a qual ocultava um túnel construído como alicerce para a ponte da BR-153. As águas, normalmente calmas do Ribeirão das Grimpas, formavam uma corredeira perigosa para os banhistas que se aventuravam ao passar pelo túnel. Dizem que muitos perderam a vida na tentativa de cruzá-lo, e que outros ficaram loucos depois de se acidentarem no trajeto. Veio-me à mente os velhos loucos que berravam ferozes durante toda a noite no asilo do outro lado da cidade. Balancei a cabeça na tentativa de que os pensamentos ruins pudessem sair de vez. Então, o barulho que Maria fez ao desembrulhar o pacote que estava dentro da sacola trouxe-me de volta à margem do poço.
Maria havia comprado um pacote de carne seca. Ela o desembrulhou, pegou a carne, partiu-a em pequenos pedaços e atirou-os pouco a pouco no poço. Da água surgiram algumas borbulhas, que iam aumentando a cada novo pedaço de carne, até que todo poço começou a fervilhar. Ela, então, agarrou-me com força e arrastou-me para a água. Caí entre as borbulhas e afundei em seguida. Não conseguia mover os braços para voltar à superfície. Ela segurava-me e fazia movimentos para levar-me para a parte mais funda do poço. Depois de lutar bastante, consegui soltar os braços e a empurrei para baixo com a ajuda dos pés. Cheguei à superfície e tomei ar, enquanto via o fervilhar da água aumentar e provocar pequenas ondas. Nadei rápido e consegui segurar na pedra que ficava quase no meio do poço. Subi um pouco e comecei a vomitar toda a água que havia tragado. Ainda tentando me recuperar, senti uma mão fria agarrar minha perna. O grito que dei ainda é comentado nos dias de hoje: “foi um grito de terror que despertou o latido de todos os cães da cidade”… diziam os bêbados e loucos. Depois do grito, pateei a mão que me agarrara, só então me virei e vi o rosto ensanguentado de Maria.
— Me solta, você está louca, quer me matar?!
— Você já está morto, lembra? Sua alma ficou no corredor da escola. Você me pagou para dar fim à sua vida triste, seu corpo agora pertence às criaturas do Poço Velho.
Atônito, visualizei pela primeira vez o rosto do menino apaixonado no corredor da escola: era eu. Senti ânsias de vômito, meu coração apertou-se no peito como se fora implodir. Revi a cena em que minha alma se despedia com ira e desaparecia no nevoeiro da escola. Olhei para o rosto de Maria e vi que seu rosto, com traços angelicais, mas ensanguentados, ia aos poucos perdendo suas feições de ódio para transformarem-se em feições de arrependimento, culpa e paixão. Nesse instante, de seus olhos rolaram lágrimas, que mescladas ao sangue correram por seu rosto até caírem na água. A água voltou-se a agitar, ela olhou para baixo e soltou minha perna:
— Fuja, salve-se, recupere sua alma!
Ela disse isso e mergulhou nas águas borbulhantes pela última vez. A água ainda continuou agitada por alguns minutos, logo o poço voltou a ser calmo e os sons de insetos e animais noturnos voltaram a dominar o local. Esperei algum tempo mais, e saltei da pedra, caindo na água, mas perto da margem. Corri até a escola, encontrei os portões trancados. Pulei o muro e caminhei pelo nevoeiro com alguma dificuldade até encontrar minha alma albina estirada nos corredores, próximo à sala dos professores. Ajoelhei e pedi perdão a mim mesmo.
Entre idas e vindas de clínicas psiquiatras, completei dezesseis anos. Foi quando decide deixar a cidade para nunca mais voltar. Vivi muitos anos percorrendo diversas cidades pelo país, logo fiz o mesmo pela Europa. Fugi da cidade que quase acabou com a minha vida, porém o horror, o terror de Hidrolândia, não é nada comparado ao horror de viver o tempo todo com meu maior inimigo: eu!

Eber Urzeda dos Santos
25/07/2019

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"Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência".